sexta-feira, 14 de julho de 2023

A BABEL HORIZONTAL

Pr. Raul Marques


“Qualquer pessoa que ande pelas ruas das grandes cidades brasileiras há de ficar impressionada com a quantidade de igrejas evangélicas. São templos, pontos de pregação, salas e até portinhas, onde o nome de Jesus é exaltado e o povo de Deus reúne-se para exercer a sua fé. Símbolo da expansão do segmento evangélico na sociedade brasileira, a proliferação de igrejas, se por um lado possibilita a disseminação da Palavra de Deus, por outro, gera situações curiosas. Há ruas com vários templos e até mesmo congregações que funcionam coladas parede a parede. Agora, engraçado mesmo – com todo respeito, claro! – é conferir o nome de algumas igrejas. Existe, por exemplo, uma certa Assembleia de Deus Com Doutrinas e Sem Costumes, no subúrbio do Rio de Janeiro. No interior de Minas, funciona a Igreja Evangélica "A Última Trombeta Soará". Isso sem falar na Igreja Cuspe de Cristo, em São Paulo”. Este é parte de um artigo que li no Ceuboy News, há alguns anos. Esse fenômeno evangélico se revela por muitos motivos, mas, dois deles em especial se manifestam mais evidentes: o modismo evangélico – especialmente a música, que tem chegado, inclusive, aos altares Católicos – e a fragilidade emocional e espiritual do povo brasileiro. Lembro-me que há trinta anos a moda era a presença dos vendilhões de ilusão nas emissoras de rádio através dos “professores” e das “madames”, quando se ouviam em todos os lugares o chavão: “Minha cara consulente...”. Não há mais essa gente nas rádios. Foram todos substituídos pelos novos “pastores”, “bispos” e até “apóstolos” da era moderna. Alguns até acompanham esses novos gurus no status de “profetas”.

O que temos visto ocorrer com tudo isso? As evidências mais tristes do crescimento de uma interminável e incontrolável Babel Horizontal. Não há o menor entendimento entre eles. Há, sim, ao contrário disso, um exagerado despreparo teológico, uma latente falta de ética cristã, um desastroso testemunho pessoal, uma confusão doutrinária sem precedentes e, por conseguinte, um acelerado processo de confusão mental por parte daqueles que são lesados na sua fé, apesar da sinceridade da busca. Por estas razões não é difícil encontrar por aí pessoas completamente frustradas e desiludidas com a fé. Nunca foi tão necessário colocar em prática o ensino bíblico, que alerta: “Amados, não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus" (1Jo 4.1). Leiam a Bíblia na companhia de alguém que, com sinceridade de coração e temor de Deus, possa lhe ajudar. Que Deus tenha misericórdia de todos nós!

sexta-feira, 5 de maio de 2023

 EU TENHO MEDO...

Pr. Raul Marques




          Quando criança eu tinha muitos medos! Medo das muitas águas; do escuro intenso; das portas fechadas com trancas; do “lobisomem”; do “velho do saco”; da “bruxa malvada”; enfim... Na medida em que fui crescendo outros medos foram sendo acrescentados: medo de matemática; medo das confusões e das multidões; medo de ser chamado ao quadro negro, etc. A grande maioria deles foi superada pela razão e pela maturidade; outros, no entanto...
           O medo é um sentimento profundamente complexo como a nossa própria existência! Ele é bom, enquanto sinal de alerta, e mal, se se tornar patológico. Ao longo da nossa vida outros medos vão se associando à caminhada e vão nos mostrando mais nítidas certas obscuridades... Eles nos ajudam na nossa proteção pessoal, ao mesmo tempo em que podem proteger as outras pessoas de nós...
           O medo não pode ser considerado um ato de covardia quando servir de motivação para o exílio contra as forças da impiedade! Ele pode, perfeitamente, se constituir no canal mais legítimo a nos levar aos “getsêmanis” em busca de paz.
Eu tenho medo do “homem”! Não é sem motivo que a Bíblia vaticina: “Maldito o homem que confia no homem, que faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17. 5). Eu tenho medo dos “falsos irmãos”, de quem o apóstolo Paulo fez menção (II Cor 11.26). O apóstolo teve tanto receio deste aspecto que, angustiado, foi além: “agora vos escrevo para que não vos associeis com qualquer pessoa que, afirmando-se irmão, for imoral ou ganancioso, idólatra ou caluniador, embriagado ou estelionatário. Com pessoas assim não deveis, sequer, sentar-se para uma refeição” (I Coríntios 5.11).
        Tenho medo do que Jesus profetizou sobre esses fatos difíceis: “Naquele tempo muitos ficarão escandalizados, trairão e odiarão uns aos outros, e numerosos falsos profetas surgirão e enganarão a muitos. Devido ao aumento da maldade, o amor de muitos esfriará” Mateus 24.10-12. Tenho medo que as decepções resultem em apatia ou, ainda pior, em antipatia às atividades do exercício da fraternidade legítima, sobretudo, quando ouço a voz do Mestre a ressoar: “Quando, porém, vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” Lucas 18:8b.

         Tenho encontrado tanta gente ferida, enganada, desiludida e frágil com as deformadas relações cristãs, que falta-me o fôlego... Conheço líderes abandonados do mesmo modo como conheço ovelhas nanicas e desnutridas clamando por amor e acolhimento. Tenho medo do tempo em que vivo. Por isto, Senhor, tem misericórdia de todos nós! Tenho saudades dos medos de quando criança... Já não sinto aquele medo ingênuo do escuro da noite; tenho medo, muito medo, das densas trevas da mente e coração humanos... 

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

 

O ANO TERMINA, OS SONHOS CONTINUAM!

 Pr. Raul Marques

 
“E, depois disso, derramarei do meu Espírito sobre todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão visões” Joel 2:28

 

Chegamos na fase final de mais um ano! É mais do que normal que façamos um balanço ou retrospectiva de tudo quanto vivenciamos e, certamente, fazendo projeções para os dias que virão. Não há nada de anormal nisso. Não há nenhum pecado ou desobediência a Deus quando fazemos as nossas reflexões quanto ao passado, presente e futuro, sobretudo quando o fazemos para a glória dEle, que nos tem permitido chegar até aqui.

Mais um ciclo está se fechando; é a vida! Quanto daquilo que sonhamos foi possível realizar? Quanta coisa projetada sequer foi iniciada? Quanto prometemos a nós mesmos e, inclusive, a Deus e nada fizemos ou deixamos inacabado? Quantas perdas tivemos! Quantas amizades novas foram conquistadas! Quantos amigos (?) sequer se despediram? Quantos obstáculos ultrapassamos? Quantos desertos atravessamos? Quantos embates tivemos? Quantas más notícias recebemos? Do mesmo modo, quantas notícias nos deixaram encantados e profundamente agradecidos? Quantos nos deixaram para trás? Ah, eles não eram nossos... Quantas decepções, quantas desilusões, quantos mal entendidos, quanta desfaçatez, quantas dissimulações... Mas, jamais poderemos nos esquecer de quantas alegrias tivemos, quantos foram “amigos mais chegados que irmãos”? Quantas conquistas! Quantas vitórias que, sequer, supúnhamos? Quantos livramentos! Quantas respostas às nossas orações! Quantas curas! Quantas bênçãos foram compartilhadas!

O ano está chegando ao seu final, mas, ao mesmo tempo, outro está prestes a ser iniciado! O Senhor prometeu derramar do Seu Espírito “sobre todos os povos”. Devemos viver e crer em tudo o que Ele nos prometeu! Se assim procedermos seremos bem sucedidos em tudo o que empreendermos, ainda que aqui e ali sejamos alvejados pelas circunstâncias, porém, vivendo conforme a máxima do apóstolo Paulo: “De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos” (2 Coríntios 4:8-9 NVI), jamais ficaremos reféns de um calendário ao concluir ou iniciar um novo ano.

A promessa do Senhor é a de que “Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão visões” (Joel 2:28) e isto é tudo o que precisamos para continuarmos a nossa caminhada até que o próprio Senhor nos recolha para Si mesmo na pátria celestial, o que já será, sem dúvida, o maior e mais almejado de todos os galardões que receberão todos os que crerem no Seu Filho como único e suficiente Salvador! Obrigado, Pai, pelo ano de se vai; obrigado, Senhor, por outro que será iniciado!  

segunda-feira, 11 de julho de 2022

 A IGREJA CULTURAL

Pr. Raul Marques

 

“No Pacto de Lausanne lemos: A cultura precisa ser sempre testada e julgada pelas Escrituras. Assim é porque a cultura é produto da sociedade humana, ao passo que as Escrituras são produto da revelação divina. Ora, Jesus foi enfático ao afirmar que a Palavra de Deus deve ter primazia sobre as tradições humanas (Mc 7:8,9,13). Não que toda cultura seja má. A cultura é ambígua, porque o homem é ambíguo. O homem tanto é nobre (porque feito à imagem e à semelhança de Deus) como ignóbil (porque decaído e pecador)”.

A cultura não é ruim ou boa por si mesma; ela simplesmente existe e é mutante. Ela é o resultado dos hábitos, regras morais, arte, língua, trajes, formas de pensar, enfim, de tudo o que está norteando o modus vivendi das sociedades. A Bíblia, por exemplo, é um conjunto de livros escritos num período correspondente a mais ou menos 1.500 anos, num contexto das mais variadas culturas: cultura nômade (Abraão), cultura egípcia (José), cultura judaica tribal (Josué), cultura judaica monárquica (Davi), cultura babilônica (Daniel), cultura Persa (Ester), cultura grega e romana (Paulo), etc.

Não duvide da capacidade de manipulação dos meios culturais, dos meios de comunicação, mesmo os mais atentos têm que tomar cuidado com as estratégias de distração impostas. “Em países com alto índice de ignorância (o Brasil ficou em sexto no índice de ignorância mundial) com baixo nível cultural, a melhor maneira de manipular a massa é através dos meios de comunicação, com programas vazios e jornais sensacionalistas direcionados a interesses próprios”.

Foi necessária esta rápida introdução para que fossemos direto ao ponto da nossa reflexão sobre os significados da expressão que cunhamos: A IGREJA CULTURAL. Estamos, pois, vivendo tempos bem complexos, difusos e ambíguos sobre os conceitos díspares de igreja (ecclesia) na Bíblia, e o ajuntamento de pessoas com expressões religiosas (communitas), no mundo.

A igreja bíblica não é uma Instituição, não é uma Organização burocrática e consumista; é, isto sim, um organismo, uma comunidade de pessoas livres que expressam a sua devoção a Deus, que compartilham suas experiências mantendo minimamente uma liturgia que seja derivada da comunhão, da partilha e da relevância do que transcende às expectativas do tempo presente. Com o tempo e a influência das culturas, no entanto, ela foi sendo transformada numa Instituição humana, impregnada de conceitos mercadológicos, influenciada pela tecnologia e rigorosamente entregue às normas e métodos de crescimento e multiplicação, pois, afinal de contas, as conexões com os céus são apenas um aspecto secundário, o primário é a sua existência e performance. A aferição sobre a sua relevância agora é a capacidade de destaque social; é habilidade intelectual dos líderes; é a destacada configuração estética e arquitetônica dos templos, que no mais das vezes tornam-se espaços para shows, espetáculos, glamour, afinal de contas o que conta mesmo é a multidão concentrada (ou confinada) nos seus arraiais.

As culturas da música, da moda, da neurolinguística, do marketing, do coach, enfim, das mais diversas atividades sociais, chegaram e invadiram as igrejas sem qualquer pudor! A igreja não está sendo o sal da terra e luz do mundo; o mundo açucarou a igreja e ofereceu-lhe claridade artificial, infelizmente! Por estes motivos é que estamos vivendo o tempo na IGREJA CULTURAL! As músicas, por exemplo, não são criadas para a glória de Deus, mas para serem sucesso! Os pregadores são profissionais da fala e, portanto, viajam mundo afora pregando o mesmo sermão em diversos lugares, do mesmo modo que um ator verbaliza um texto para diversas plateias e é ovacionado!

Assim como os pequenos mercados e mercearias foram engolidos pelos supermercados e pequenas lojas pelos shopping centers, também as pequenas congregações foram transformadas em mega igrejas... A política mercadológica alcançou a igreja! É tudo muito lamentável, porém, o que nos consola, conforta e reveste de esperança, é o que vaticinou Jesus fitando os olhos de Pedro: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela...” Mateus 16:18. Que o Senhor tenha misericórdia de todos nós!   

terça-feira, 7 de junho de 2022

 MANICÔMIOS...

Pr. Raul Marques

H
á algum tempo ouvíamos freqüentemente a expressão “Este mundo virou uma imensa Babel!”. Era, talvez, o diagnóstico mais evidente de que estávamos todos perdendo a capacidade do diálogo e do entendimento entre os homens na terra. Tantas coisas já passaram... Vivemos um tempo cada vez mais técnico, mais utilitário e mais anacrônico! Nunca vivemos tanta frieza e desprezo uns pelos outros como temos observado agora... Somos hoje quase 7 bilhões de seres humanos trancados em manicômios sociais que são denominados estranhamente de Shoppings, Universidades, Estádios, Empresas, Igrejas e Lares da modernidade. Vivenciamos uma esquizofrenia social sem precedentes! 

                A mente e o coração da humanidade estão enfermos. A nossa espantosa forma de viver hoje me fez lembrar um episódio temerário que eu e minha esposa experimentamos em um dos edifícios mais altos do Rio de Janeiro, quando ficamos trancados por alguns infinitos minutos dentro de elevador onde estavam, mais ou menos, umas 15 pessoas. De repente houve uma interrupção de energia elétrica e a máquina parou entre dois andares: o vigésimo primeiro e o vigésimo segundo. Passados alguns poucos minutos, as pessoas começaram a olhar umas para as outras com espanto e estranheza. Ninguém queria ficar perto de ninguém porque parecia que cada um tomava para si o oxigênio do outro... A coisa foi ficando dramática até que, de repente alguém do Corpo de Bombeiros gritou para que ficássemos tranquilos  pois eles estavam providenciando a nossa descida mecanicamente pela brecha que abririam entre um e outro andar. Vejo muita semelhança deste fato com a nossa maneira moderna (?) de viver. Ninguém visualiza o coletivo antes do particular. Estamos juntos, porém, estranhamente distantes. A árvore que dá sombra e que dá frutos agora tem dono. Dizemos viver em sociedade, mas o que importa mesmo é “cada um no seu quadrado”, mesmo que nada façamos para que todos tenham o “seu quadrado”.

Vivi recentemente algumas experiências que embasam tristemente esta realidade. Conheci uma jovem de 23 anos, com 3 filhos, acometida de 6 cânceres, que de tanto pavor da morte deixou de depender de 4 doses diárias e controladas de morfina para alívio de suas dores, para tornar-se dependente de mais 50 doses diárias, adquiridas ilicitamente, com traficantes de medicamentos. Conheci um jovem de 25 anos que se tornou dependente químico dentro de um quartel militar. Tomei ciência de que um irmão voltou à lama das drogas e sua família foi desprezada como se não houvesse mais chances de tratamento e do exercício da misericórdia. Vejo pessoas que antes eram ovacionadas, agora escandalosamente expostas ao ridículo, sem o menor arrepio na moral.

Estamos todos dentro de um grande manicômio social! Nunca tivemos tantas pessoas doentes da alma como agora. Nunca se viveu no mundo sob tanta desconfiança e suspeita. A espiritualidade nunca pareceu-nos tão inútil sob tantas regras esdrúxulas e extemporâneas. No entanto, a despeito de todo este caos, a solução está nos ensinos de Jesus, resumidos nesta porção: “Disse-lhes Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” Mateus 22.37-40. Que o Senhor tenha misericórdia de nós!