A IGREJA CULTURAL
Pr. Raul Marques
“No Pacto de Lausanne lemos: A cultura precisa ser sempre
testada e julgada pelas Escrituras. Assim é porque a cultura é produto da
sociedade humana, ao passo que as Escrituras são produto da revelação divina.
Ora, Jesus foi enfático ao afirmar que a Palavra de Deus deve ter primazia
sobre as tradições humanas (Mc 7:8,9,13). Não que toda cultura seja má. A cultura é ambígua, porque o
homem é ambíguo. O homem tanto é nobre (porque feito à imagem e à semelhança de
Deus) como ignóbil (porque decaído e pecador)”.
A cultura não é ruim ou boa por si
mesma; ela simplesmente existe e é mutante. Ela é o resultado dos hábitos,
regras morais, arte, língua, trajes, formas de pensar, enfim, de tudo o que
está norteando o modus
vivendi das
sociedades. A Bíblia, por exemplo, é um conjunto de livros escritos num período
correspondente a mais ou menos 1.500 anos, num contexto das mais variadas
culturas: cultura
nômade (Abraão), cultura egípcia (José), cultura judaica tribal (Josué), cultura judaica monárquica (Davi), cultura babilônica (Daniel), cultura Persa (Ester), cultura grega e romana (Paulo), etc.
Não duvide da capacidade de manipulação
dos meios culturais, dos meios de comunicação, mesmo os mais atentos têm que
tomar cuidado com as estratégias de distração impostas. “Em países com alto índice de
ignorância (o Brasil ficou em sexto no índice de ignorância mundial) com baixo
nível cultural, a melhor maneira de manipular a massa é através dos meios de
comunicação, com programas vazios e jornais sensacionalistas direcionados a
interesses próprios”.
Foi necessária esta rápida introdução
para que fossemos direto ao ponto da nossa reflexão sobre os significados da
expressão que cunhamos: A IGREJA CULTURAL. Estamos, pois, vivendo tempos bem
complexos, difusos e ambíguos sobre os conceitos díspares de igreja (ecclesia) na Bíblia, e o ajuntamento de
pessoas com expressões religiosas (communitas), no mundo.
A igreja bíblica não é uma
Instituição, não é uma Organização burocrática e consumista; é, isto sim, um organismo, uma
comunidade de pessoas livres que expressam a sua devoção a Deus, que
compartilham suas experiências mantendo minimamente uma liturgia que seja
derivada da comunhão, da partilha e da relevância do que transcende às expectativas do tempo
presente. Com o tempo e a influência das culturas, no entanto, ela foi sendo
transformada numa Instituição humana, impregnada de conceitos mercadológicos,
influenciada pela tecnologia e rigorosamente entregue às normas e métodos de
crescimento e multiplicação, pois, afinal de contas, as conexões com os céus
são apenas um aspecto secundário, o primário é a sua existência e performance. A
aferição sobre a sua relevância agora é a capacidade de destaque social; é habilidade intelectual dos líderes; é a destacada
configuração estética e arquitetônica dos templos, que no mais das vezes
tornam-se espaços para shows, espetáculos, glamour, afinal de contas o que
conta mesmo é a multidão concentrada (ou confinada) nos seus arraiais.
As culturas da música, da moda, da
neurolinguística, do marketing, do coach, enfim, das mais diversas atividades
sociais, chegaram e invadiram as igrejas sem qualquer pudor! A igreja não está
sendo o sal da
terra e luz do mundo; o mundo açucarou a igreja e ofereceu-lhe claridade artificial,
infelizmente! Por estes motivos é que estamos vivendo o tempo na IGREJA
CULTURAL! As músicas, por exemplo, não são criadas para a glória de Deus, mas
para serem sucesso! Os pregadores são profissionais da fala e, portanto, viajam
mundo afora pregando o mesmo sermão em diversos lugares, do mesmo modo que um
ator verbaliza um texto para diversas plateias e é ovacionado!
Assim como os pequenos mercados e
mercearias foram engolidos pelos supermercados e pequenas lojas pelos shopping
centers, também as pequenas congregações foram transformadas em mega igrejas...
A política mercadológica alcançou a igreja! É tudo muito lamentável, porém, o
que nos consola, conforta e reveste de esperança, é o que vaticinou Jesus
fitando os olhos de Pedro: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra
edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra
ela...” Mateus
16:18. Que o Senhor tenha misericórdia de todos nós!