quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

 FRENTE E VERSO DO BORDADO EXISTENCIAL

 Pr. Raul Marques



Quase nunca prestamos atenção na parte de trás de um bordado. À primeira vista toda tela é impecável! Invariavelmente, somos tentados a concluir que todo livro que traz uma boa capa é um excelente livro... Até declaramos poética e equivocadamente que “aquilo que os olhos não vêm, o coração não sente...”.
Lembro-me, perfeitamente, que em anos já distantes, vi muitas vezes mulheres esmeradas cuidando de bordados elaborados em um tecido esticado à base de duas argolas de madeira, com agulha e linhas de diversas cores, num entra e sai repetitivo que findava por trazer à vista belíssimas decorações e desenhos os mais variados e profundamente complexos! É tudo mais ou menos semelhante a um edifício concluído e irretocavelmente bem acabado, que não deixa à mostra vigas com excesso de cimento, pontas de ferro, arames, pedaços de gesso, fios e tubulações tão feias, porém, tão calculadamente postos...Ao recordar-me daqueles bordados, lembrei-me de pronto, que eles sempre tinham o avesso muito enfeado por um emaranhado de linhas que não mostravam quase nenhuma conexão e muito menos beleza... O verso do bordado era, por assim dizer, desprezível! Tinha razão, portanto, o filósofo Platão ao afirmar que nada do que vemos é real, apenas a sombra ou a aparência retratada do modo ideal.


Há um adágio popular que afirma: “Nem tudo o que reluz é ouro!”. Quem jamais ousou afirmar, por exemplo, que a Mona Lisa sorri de satisfação ou timidez? Qualquer conclusão é meramente especulativa e pessoal. Por trás daquela expressão há um enigmático sentimento; da modelo ou do artista...
Há tanta gente que se parece com este protótipo! Muitos de nós têm tentado viver para vender uma imagem instigante de si mesmos quando, na verdade, o esforço maior é o de esconder o emaranhado de linhas desconexas do bordado existencial! A policromia dos carretéis é gasta na tentativa de melhorar a avaliação externa do bordado do caráter; a agulha que atravessa o tecido da personalidade não consegue esconder os nós e pedaços de linha que interrompem a tessitura do bordado...


Na Bíblia, pela boca de Jesus, encontramos uma similaridade deste quadro: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia” Mateus 23:27. Nunca devemos avaliar as pessoas e as situações, simplesmente pelas partes exteriores, senão correremos sempre o risco de deixar de ver o que está por dentro ou por trás... Tem misericórdia de nós, Senhor, e cuida do bordado da nossa existência!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

 RECOMEÇO


Pr. Raul Marques

 

              Alguém já disse que “um ponto final é apenas o inicio de um novo parágrafo”. Sim, sem dúvidas, embora às vezes o ponto final poderá significar o desfecho de toda uma história que acaba de ser contada...

             Rasgamos a última folhinha do calendário do ano, mas ao lado dele já avistamos a página inicial de um novo marcador de novos dias e meses de mais um novo, como alguém gritando a plenos pulmões no megafone da existência: “Continue! O tempo ainda não parou pra você!”. Como diria o profeta: “Conheçamos e prossigamos em conhecer o Senhor!” (Oséias 6.3). A vida é encantadora também por este aspecto: ela se recicla, se renova, enfim, recomeça...

          Tivemos um ano que passou absolutamente marcado pelos sobressaltos, pelo medo, pela incerteza, pelas perdas irreparáveis e de dados absurdos, como: mais de 83.527.738 casos registrados no mundo de infectados pela COVID-19, dos quais 47.109.370 foram recuperados e, infelizmente, 1.819.905 morreram, com recorde de 15.518 pessoas num só dia, segundo a universidade Johns Hopkins.

            O mundo inteiro parou. Daí, inevitavelmente, algumas reflexões devem ser feitas: Por que desaceleramos tão bruscamente? O que estamos fazendo com o tempo que dizíamos não ter? Por que, de repente, a família passou a ter uma importância tamanha? Por que descobrimos, finalmente, o nosso lado mais podre: o individualismo, e passamos a sentir tanto a falta do abraço, do aperto de mãos, o valor do sorriso escancarado? Por que foi preciso a orientalização do costume do uso da “quase burca”, a máscara, como que a esconder o nosso rosto da vergonha da falta de solidariedade humana? Por que, de repente, os lares passaram a ser o lugar menos perigoso do planeta? Por que será que fomos tão abruptamente arrancados dos braços dos nossos entes mais queridos? Por que a solidão do isolamento tornou-se um fardo pesado se já o praticávamos egoisticamente e sem a menor explicação racional?

          Rapidamente tivemos que suportar a dor dos “ilhados”. Tivemos que buscar pelo próximo ainda que fosse somente saindo na sacada, indo até o meio do caminho, mantendo a distância... Tivemos a necessidade de cumprimentos ainda que fossem por telefones, vídeos, cartazes... Fomos forçados por um meio invisível a entender o individualismo quando já o praticávamos quando tínhamos total liberdade de ir e vir e nos omitíamos... Quando, na verdade, tudo isto voltará ao normal? Mas, afinal, que normal? Quem disse que a forma como vivíamos era normal? A maior e mais profunda mutação que está se revelando não é a do vírus, mas a nossa! Mudamos tão profundamente a nossa forma de viver e de pensar que o outro, o próximo, já não fazia parte do nosso espetáculo; nós éramos as estrelas em constelações ilhadas e perdidas num infinito coberto de efemeridades e despropósitos!

          Deus nos concedeu um RECOMEÇO, por isto mesmo estamos aqui agora! O que iremos fazer daqui por diante? Que sentido daremos às nossas vidas? O que faremos com a nossa capacidade de amar o próximo como a nós mesmos? Será que daremos lugar a Deus na nossa vida, no nosso quarto, na nossa mesa?

          Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e o seu tronco morrer no pó, ao cheiro das águas brotará, e dará ramos como uma planta(Jó 14:7-9). É tempo de recomeçar, façamo-lo da maneira certa! Deixemos de lado a nossa arrogância e planos escusos, de maneira que o Senhor tome a direção das nossas vidas e nos leve às águas de descanso! Que o Senhor tenha misericórdia de todos nós!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

DE QUE NATAL ESTAMOS 

FALANDO, AFINAL?

        Pr. Raul Marques




      Alguma coisa muito estranha está ocorrendo no mundo! Esta talvez seja a expressão mais recorrente nas conversas entre as pessoas no planeta inteiro neste momento... Estamos todos completamente atônitos, perplexos, cheios de dúvidas, de incertezas, de medo e até de pânico! Mas, afinal, o que tem produzido tudo isto? O que mais temíamos há bem pouco tempo era a eclosão de uma guerra fria entre as super potências... Era, quem sabe, a estúpida decisão de crivar os céus com ogivas nucleares que, atravessando o Atlântico, o Ártico, o Pacífico e o Mediterrâneo, dizimassem populações inteiras e varressem povos e etnias definitivamente do Mapa... Vivíamos como se o amor e a solidariedade jamais tivessem existido... No entanto, o que percebemos é que o que mais nos assusta é exatamente aquilo que não vemos: o vírus, o sanguinolento COVID-19! É a coagulação do sangue que ele prefere, depois de atacar todo o aparelho respiratório!

A Bíblia nos ensina há séculos e séculos que “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu filho Unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Este presente de Deus é ainda mais relevante porque Ele o fez com o Seu próprio sacrifício: “o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (I João 1.7). ELE não tomou o sangue de ninguém, pelo contrário, ELE deu o que era propriamente Seu!

Há mais de dois mil anos o mundo viu nascer o seu Redentor! O nascimento dEle trouxe muita dor: ao coração de Deus, ao corpo de Maria e no desespero de José! Este sim, foi o Natal que trouxe salvação pro mundo! Naquele Natal apenas uma estrela brilhou intensamente no céu. Não havia fogos de artifício e muito menos luzes artificiais! Naquele Natal ninguém se banqueteava; não havia opulência; sequer aquela família tinha um lugar adequado para o nascimento do seu filho... No entanto, ninguém se lamentava, ao contrário, havia pastores pobres nos campos exultando de alegria com os seus rebanhos porque algo sobrenatural estava ocorrendo no mundo...

Pela primeira vez a humanidade está privada de celebrar um Natal que ela jamais aprendeu realmente o seu significado! De que Natal estamos falando, afinal? O Natal dos homens não será possível até que eles ressignifiquem tão profundo acontecimento! Não será possível grandes concentrações humanas para dar vazão às glutonarias, às orgias, aos sacrilégios, às blasfêmias, etc. O mundo está em polvorosa! O vírus letal parou todos os sistemas planetários... Nunca se ouviu tanto “ai meu Deus!” Não vai haver Natal nos moldes humanos... O verdadeiro Natal ganhará novos significados nos corações dos que, temerosos e aturdidos, se voltarem para o céu e, como Bartimeu – que nada conseguia ver! – sintam que Jesus está passando ali por perto e, finalmente, gritem: “Jesus, filho de Davi, tem misericórdia...” (Lucas 10.47). Uma coisa precisa ser dita, ainda que muitos não creiam: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada?” (Romanos 8.35). Eu creio que poderemos viver o verdadeiro Natal, sempre! Deus tenha misericórdia de todos nós!

 

 

 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O COMPLEXO DA CENTÉSIMA OVELHA


Pr. Raul Marques


É notícia recorrente no meio evangélico o fato de ovelhas desgarradas do rebanho virarem turistas da religião. O pior disso tudo é que a ovelha por onde passa dissemina a ideia de ter sido abandonada, completamente largada e, por isso mesmo, está às soltas buscando encontrar um novo aprisco.

O texto de Lucas 15.4-7 revela-nos duas belas imagens que poderão perfeitamente ilustrar e explicar esse fenômeno do comportamento religioso. Primeiro, o evangelista faz arguição à liderança do rebanho: “Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove, e não vai após a perdida até que venha a achá-la?”.

Certamente que nenhum pastor se compraz com o abandono de qualquer de suas ovelhas. É natural que o pastor sinta a falta de qualquer de suas ovelhas no rebanho e seja capaz de “deixar” noventa e nove daquelas cem a fim de alcançar o retorno daquela que está desgarrada. Mas é bastante significativo notar que o texto não deixa qualquer dúvida sobre o estado em que se encontra a centésima ovelha: ela é o arquétipo de um pecador arrependido. Informa-nos o texto: “Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15.7).

Infelizmente não é o que costumeiramente vemos ocorrer nos apriscos: arrependimento. Ao contrário, vemos muito orgulho, vergonha, ressentimento, e o que é pior: atribuição de culpa ao pastor que no mais das vezes é o último a saber das causas, sendo sempre o único a tentar minimizar as consequências. Deve o pastor ser bíblico no tratamento das suas ovelhas, mas não poderá jamais compactuar com mimos e vaidades pessoais que levem ao comprometimento de todo o rebanho. Parece-nos que muitos sentem prazer o complexo da centésima ovelha: impactar a vida do pastor e causar desassossego nas noventa e nove que terão que suportar a dureza do deserto... Que o Senhor tenha misericórdia de todos nós!

 


segunda-feira, 16 de novembro de 2020

 QUANDO O SILÊNCIO 

FALA MAIS ALTO

Pr. Raul Marques



“Mas Jesus permaneceu em silêncio. O sumo sacerdote lhe disse: Exijo que você jure pelo Deus vivo: se você é o Cristo, o Filho de Deus, diga-nos Mateus 26.63.
 

Cresci ouvindo este adágio popular: “Quem cala, consente!”. Não creio que isto seja uma verdade absoluta, pois, podemos perfeitamente discordar de alguém ou de alguma coisa sem, contudo, emitirmos qualquer palavra. O silêncio muitas vezes tem o poder de gritar mais alto! “O SENHOR pelejará por vós, e vós vos calareis” (Êxodo 14:14).
O manifesto do silencio é, muitas vezes, a mais contundente resposta a indagações carregadas de maldade e de intenções espúrias. Silenciar pode significar abrir espaço para Deus falar por nós! Grandes obras não são feitas com força, mas a perseverança (Samuel Johnson). Indagações maldosas ferem; o silêncio, porém, incomoda muito mais às maldades. O silencio pode ser o nosso maior aliado, dependendo das circunstâncias. Muitas vezes somos espremidos e quase obrigados a dar respostas que não temos ou, de outro modo, a emitir opinião que tão somente colocariam mais fogo no palheiro, se entendidas distorcidamente. Os poetas e pensadores amam o silencio! Os profetas e os sábios também expressaram muito com o silencio. Jesus foi O mestre da palavra e do silencio.

Silenciamos diante de situações duvidosas... Silenciamos para não magoar... Silenciamos em nome da paz... Silenciamos em nome do amor! O silencio tanto pode ser a angústia mais profunda dos culpados, quanto a atitude mais sábia dos inocentes. Pode ser tanto a expressão mais profunda da lisura, quanto a mais lancinante resposta às arguições infundadas. Em tudo deve haver prudência.

Quantas vezes precisei engolir à seco? Quantas vezes senti sapos descerem goela a baixo? Quantas vezes precisei entender os algozes, no meu silencio? Quantas vezes andei a segunda milha em absoluto silencio? Quantas vezes tomei a minha cruz e segui silenciosamente?

Na ordem do cânon bíblico, entre Malaquias e Mateus, há um lapso de tempo entendido por muitos como o silencio de Deus. No capítulo 26 de Mateus, versículo 63 está registrado que, diante de um sacerdote, Jesus preferiu o silencio como resposta à leviandade impetrada contra Ele. Num momento seguinte, diante de Pôncio Pilatos (Mateus 27.13-14), Jesus preferiu silenciar mais uma vez. Mais tarde, diante de Deus-Pai, Todo Poderoso, Fiel e Justo Juiz, Jesus expressou a Sua resposta às acusações do mundo: “Quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (João 19:30). Pode alguém, de hoje em diante, dormir em paz com este barulho?